Devaneios, Desabafos e Divagações

sem pauta
sem periodicidade
sem propósito:
pensamentos impertinentes
por Michelle Castro

13 Março 2010

Um vazio azul

Sofia escreveu com o coração escancarado aquelas linhas que ninguém jamais leria. Deletou. Era melhor assim. Começou de novo. Tirou de dentro de si todo o pesar e passou para a folha branca. Pesar pelos olhos vazios que viu. Olhos que eram nada mais que espelhos, reflexos dela, uma completa estranha, no fim das contas. Ela não suportava a ideia de ser capaz de provocar tamanho desapontamento a quem já quis tão bem.
Disse a si mesma que é impossível mergulhar no mesmo rio duas vezes. Assustada, repetiu que as pessoas mudam. Ela mudou. As palavras, que sempre foram tão próximas dela, fugiram. Letras agrupadas não descreveriam aquele vazio. Só o silêncio explicaria a verdade. E a verdade é que Sofia não olha para trás, e se recusa a viver sob aquela camada de pó. Eles já não habitavam mais o mesmo tempo verbal.